MICROFONANDO CAIXAS LESLIE

artigo escrito por Daniel Latorre

 Publicado na Revista Áudio Música e Tecnologia de Outubro  de 2003

Grande parte do som do famoso Hammond B3 deve-se a Caixa Leslie. Sem ela talvez o Hammond não fosse tão famoso e usado em quase todo o estilo musical.

Por muitos anos seu uso foi deixado de lado para dar vazão aos sintetizadores e samplers, mas descobrimos que não há substitutos a altura destes maravilhosos instrumentos musicais.

O mesmo aconteceu com o mistério sobre a captura de seu som. Talvez se não tivéssemos quase que abandonado este instrumento, a tecnologia e os fabricantes de equipamentos de gravação e microfones fossem mais específicos e aprofundassem o estudo da captura do SOM EM MOVIMENTO.

Modelos e Aplicações

Diagrama de funcionamento 

Há vários modelos de Caixa Leslie para diversas aplicações musicais. Entre os modelos está o construído especialmente para o Hammond B3: Leslie modelo 122. Basicamente os outros modelos seguem o mesmo princípio desta caixa, com algumas variações.

Visão Geral da Leslie 122

A Leslie 122 é constituída de três compartimentos diferentes - figura ao lado.

No compartimento central, que é tampado, ficam os Falantes e componentes. No compartimento superior fica a corneta giratória e no compartimento inferior fica a bandeja giratória e o amplificador valvulado de 40 watts. Este é apenas um power com duas válvulas 6550, uma 12ax7 e uma 12au7. A pré-amplificação é feita no órgão.

Portanto o som sai dividido em duas partes. Os agudos e médio agudos ficam no compartimento superior e os graves e médio graves no compartimento inferior.

A corneta dupla foi projetada para que o som do drive vintage Jensen V21 passe apenas por uma corneta, a outra funciona apenas como contrapeso.

Especial

Caixa Leslie 122

O inventor Don Leslie projetou esta caixa para enriquecer o som do órgão Hammond na década de 40. O seu timbre especial vem também do sistema e componentes que jogam o som pelo ambiente, proporcionando movimento e alterando a percepção. (Don se inspirou no órgão de tubos cujos tubos ficam espalhados pelo ambiente). A potência de 40 watts pode parecer pouco para os padrões de hoje principalmente no uso em palco e junto de bandas de rock. Ao passar dos anos muitos tentaram alterar ou substituir o amplificador e os falantes para ter um som mais poderoso e acabaram descobrindo que ao fazer estas alterações, a característica sonora de resposta do sistema rotatório mudava drasticamente levando a resultados de perda dos harmônicos e características que fizeram esta caixa tão famosa. Portanto o conjunto de falantes e amplificador ideal é o que foi originalmente usado.

Muito Mais que Doppler

O Efeito Doppler é associado ao efeito que a Caixa Leslie produz, porém é apenas parte da explicação. Há uma situação mais complexa quando há movimentos físicos ao som. Quando o falante se move em nossa direção, a afinação sobe. Ao mesmo tempo há uma radiação batendo nas paredes e refletindo até nós fazendo com que a afinação desça. A Caixa Leslie cria uma gama de infinitas freqüências resultante dos reflexos que batem nas paredes do ambiente.

Dependendo do ambiente que a caixa se encontra, o efeito pode mudar.

No caso da Leslie 122 e similares, não são realmente os falantes que giram, mas um sistema que é capaz de jogar o som produzido pelo amplificador e cortado em 800 hz para uma corneta (fig.acima) e um woofer (fig acima) , cada um com seu sistema giratório independente. Parte da característica desta caixa vem do fato de que os componentes giram em sentidos opostos. Para incrementar, a Leslie 122 funciona com duas velocidades. A velocidade Coral: sistema que joga o som lentamente pelo ambiente criando uma espécie de chorus; e Tremolo: sistema com velocidade rápida das cornetas criando uma espécie de tremolo natural. Há por ultimo o efeito da passagem de uma velocidade para a outra criando um efeito único e belíssimo através da aceleração e desaceleração dos rotores.

Portanto há muito que se levar em conta na hora de colocar o som de uma Leslie em um gravador seja ele digital ou analógico. Mas existe alguns métodos e muitas variações do mesmo para isso.

Estarei mostrando aqui algumas das microfonações mais usadas em diferentes estilos musicais. Os microfones sugeridos são apenas exemplos. Na nossa realidade devemos nos valer da versatilidade e usarmos os equipamentos que temos em mãos. Muitas vezes nos surpreendemos com isso ...

Realçando o Efeito Rotatório da Leslie

Realce

O  Melhor posicionamento ao vivo e muitas vezes em estúdios é este:

Usando dois microfones Shure SM57 (ou equivalentes) ou no caso de estúdios, dois microfones condensadores. Posicione-os na parte de cima um de cada lado como na figura ao lado ou entre as fendas na caixa . Este método faz com que o vento proporcionado pelas cornetas girando seja ajustável (principalmente em tremolo) através da distancia entre o microfone e a caixa. Deixe canais independentes para cada microfone, use o pan para um efeito estéreo. Na parte de baixo use um microfone como o Sennheiser MD421 ou até mesmo um Shure SM58, o ideal para a parte de baixo é sempre optar por usar um microfone com boa amplitude para captar freqüências graves. Posicione na parte de baixo no centro da caixa entre as fendas.

Para Rock e Pop pode ser usado um pouco de compressão, principalmente se colocar os microfones bem perto,. Há uma variação grande no nível volume quando os falantes giram dependendo dos microfones usados.

Ambiente

captando de várias formas

O primeiro passo seria capturar o som de uma forma ambiente. Para isso é recomendável usar uma sala com uma boa acústica.

Antes de tudo devemos escutar o som na sala antes de qualquer coisa. Se o som não estiver bom aos nossos ouvidos, neste método, não vai soar bem na gravação. Para posicionar o microfone o ideal seria andar ao redor da sala e identificar os pontos onde soa melhor. O mesmo pode ser feito movendo a caixa de posição até achar o ideal. Para os microfones, é recomendado microfones com largo espectro de alcance (condenser large-diaphragm) como o Audio Technica AT4033, colocado a mais ou menos um metro da caixa na metade da sua altura. Podem ser usados também dois microfones em pontos diferentes da sala produzindo uma ambientação diferente.Para isso pode usar microfones variados como AKG C451 e similares.

Mais Efeito

mais efeito e realce com 3 ou 4 mics

Este método pode ser usado ao vivo e em estúdios.

É uma variação do primeiro exemplo que tem como objetivo intensificar o efeito giratório através da colocação de dois pares de microfones SM57 e SM58 um de cada lado da caixa, tanto para a parte superior quanto para a inferior. O melhore seria usar quatro canais separados e abrir um pan em cada canal para dar a idéia de movimento. no caso da foto ao lado usaram apenas um microfone condensador Audio Técnica para os graves.

Simples

O método mais simples e um dos mais eficientes tanto para ao vivo quanto para gravações é o Mono. Para isso a caixa deve ser microfonada pela parte de trás, removendo as tampas de cima e de baixo. Posicione um microfone na parte de cima (cuidado para não encostar na corneta!) e outro na parte de baixo, o mais próximo possível dos rotores. Este método faz com que o som fique mais possante e com o efeito do vento. Quando microfonado através das fendas da caixa, o vento é dissipado e, de certa forma, filtrado através das aberturas.

Coloque os microfones em canais independentes ou mixe os dois em um canal. Evite usar qualquer equalização. Tente tirar o melhor som através da posição dos microfones. A equalização faz com que perca freqüências que são importantes para dar corpo ao som. O Melhor é usar um pré-amplificador valvulado, com um pouco de saturação pode-se criar um som mais enérgico.

dois microfones

Suavidade

escolha a distânicia da caixa de acordo com o microne

Este método consiste em usar dois microfones posicionados na parte de cima da caixa com a tampa de trás aberta. Os dois microfones, com as características de um Sennheiser MD421, são posicionados no centro da caixa e cada um virado para lados opostos e o mais perto possível da corneta (fig4). Usando um canal para cada microfone coloque pan em estéreo. Não há microfone na parte de baixo. Ao invés disso é gravado o som direto do órgão (ou de outro instrumento) e através da equalização são removidas as freqüências agudas e colocado no centro do pam. Os canais de microfone e linha são misturados proporcionando um efeito suave e expandido, diferente do que se ouve ao vivo. 

 

Ambiente 2

Um ou dois mics para captar o ambiente.

Um outro Método para captar o som natural em gravações, é colocar a caixa em uma sala com bastante reverberação natural e adicionar um ou dois microfones, com características semelhantes a um AKG C414, posicionado acima da caixa em seu centro absoluto ou ponto estratégico. Desta maneira há uma captura de toda a reverberação natural do som batendo e rebatendo nas paredes da sala, coisa que nenhum DSP seria capaz de realiza.

Dicas de Microfones

Além dos Modelos de Microfones citados nos métodos acima, outros microfones recomendados para usar na Leslie são:

Condensadores

AT3035 e AT3031 – Da Áudio Technica, que suporta alta pressão sonora, aproximadamente 158 dB SPL com atenuador ativado.

Microfones de Over para captar o som da caixa através da reflexão da Sala ou ambiente:

Audio-Technica AT4033 ou AT4040

Audio-Technica AT 3035

Groove Tubes MD3A

Não há grandes segredos para usar a caixa Leslie em gravações. Sempre devemos seguir o "bom gosto" e estar de acordo com o estilo musical escolhido. Por exemplo, no Rock, conseguir o máximo de e Ressonância da própria acústica interna da caixa é o ideal. No Jazz, captar a clareza e o som ambiente da Leslie é o desafio e no Blues o meio termo entre os dos dois exemplos anteriores é o mais usado. Portanto, o que acabaremos percebendo, mais cedo ou mais tarde, é que não tem como tirar som ruim de uma Caixa Leslie.

Agradecimentos: Warwick Kerr Jr, Conrado Rüther (Pelas dicas de Microfone), Mark Vail, Wagner Carneiro, Waichiro Tachikawa e Hammond Suzuki Co. www.hammond.com.br

Daniel Latorre

Pianista e Organista, Iniciou sua carreira tocando em bares de São Paulo. Aperfeiçoou seus estudos com a renomada pianista Maria Thereza Russo. Compôs trilhas sonoras para teatro e participou de festivais de Jazz. Se especializou em tocar Jazz, Blues e Rock em órgãos Hammond. Faz parte da Banda Paulo Zinner Rockestra, do projeto de Andreas Kisser Brasil Rock Stars e esta gravando seu projeto de Jazz. Atualmente é endorser da da Hammond no Brasil. 

www.hammond.hpg.com.br  2003 - www.hammond.com.br 2004 - www.musitec.com.br

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